9 de novembro de 2015

A irresponsabilidade com o ser humano

Domingo não é meu dia favorito pra assistir televisão, principalmente se o programa for de algum canal aberto, porém ontem, parei para assistir Repórter em Ação da Rede Record. A chamada da matéria era a seguinte:

"Você vai conhecer histórias emocionantes de pessoas que se tornaram invisíveis mesmo diante de uma multidão, perderam a referência familiar e até a própria identidade."

A reportagem, como esperado era a mais clichê possível, buscaram moradores de ruas para contar suas histórias de vida. Teve de tudo: Menino que sonha em ser funkeiro e passa o dia em biblioteca, publicitário falido e tinha Eduardo, jovem e filho de família rica de taubaté. 

Eduardo estudou em boas escolas, sempre tirou notas boas, fala inglês, morava em condomínio fechado e tinha casa de praia. O pai faleceu há dois anos, Eduardo e a mãe então entraram em guerra. Ele alega que tem direito a 50 mil reais de herança. Ela diz que se der o dinheiro, ele vai gastar todo o dinheiro e continuara dando trabalho, já que Eduardo tem problemas comportamentais. 

Assim que Eduardo contou sua historia eu já tinha certeza qual o rumo a reportagem tomaria: Iriam procurar a família de Eduardo e tentar uma reconciliação. já que ele declarou que seu maior desejo era sair das ruas de São Paulo e retornar ao lar em Taubaté. Legal? Não!



Encontraram a mãe do rapaz e decidiram promover o reencontro. Colocaram Eduardo em uma van e seguiram rumo a Taubaté, em frente aos portões do condomínio de luxo o conduziram até o portão de visitantes e interfonaram para a mãe do rapaz. Ela, por sua vez manda dizer que não está.

Começo a me questionar: Será que levaram ele até lá sem ao menos terem contatado a mãe? Sem checar o lado da mulher na história, ou saber se ela queria o reencontro?
E as respostas vieram com as cenas que se seguiram.

A repórter então consegue contato com a mãe através do interfone e é autorizada a entrar no condomínio sem câmeras e sem os microfones. Um carro se aproxima da repórter e do morador de rua. Frases soltas são captadas pelos microfones que ficaram do lado de fora dos portões.

" Se eu der o dinheiro, ele vai torrar tudo e me pedir mais. Ele tem problemas comportamentais."
" Mãe, eu abro mão do dinheiro se você me deixar voltar."
" Não, você diz isso e depois de alguns dias vai fazer um inferno de novo. Sai da frente do meu carro antes que eu te atropele."
 A senhora arranca com o carro deixando o filho para trás, frente as câmeras. Nesse momento meu coração foi inundado de sentimentos ruins. Em primeiro lugar pelo jornalismo barato vinculado em rede nacional, de uma irresponsabilidade enorme em promover um encontro sem ao menos terem contatado a mãe. Em segundo lugar com a mãe, que deixou o filho comendo poeira e visivelmente abalado pra trás.

Depois da cena lamentável a reportar indaga: E agora Eduardo?
Agora? Agora ele entra na van de vocês, volta para as ruas de São Paulo, dormindo na rua, sem comer, a procura de emprego e com uma rejeição a mais nas costas. Os olhos caídos preparados para cair em um choro profundo e doloroso.

A intenção era ajudar? Talvez. Eu acredito que se a reportagem tinha essa a intenção toda a equipe teria procurado a família do rapaz antes de submete-lo a esse constrangimento e apelo emocional. Ninguém tem o direito de remexer o baú de lembranças de ninguém, principalmente se a "boa intenção" não surtir o efeito esperado.

Eduardo entrou na van, voltou pra São Paulo e foi desovado nas ruas, com a decepção nos olhos.
Tudo vale a pena por audiência ?

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